tentativa de organização I

sábado, 7 de fevereiro de 2009

processo criativo 3: PIU

estar na rua em casa.

Sensação de liberdade: andar pra qualquer lado sem limites.

Explorar as articulações calcanhar/metatarso/dedos, massageá-las nas fissuras e relevos da calçada.

Vento na pele e nos cabelos: vento fresco e limpo que veio depois da chuva;

analisar corpos desconhecidos;

deparar-se com com os problemas, soluções, cores, poeira, concreto, sujeira, história, coisas pavorosas, medos desconhecidos;
atrações fúnebres;
seduções modestas;
simpatias surpreendentes;
antipatias mal-comidas;
acomodações precárias.


A pura realidade dos que vivem.

processo criativo 2

"Olhe para isto!
Já viu uma coisa tão horripilante, pavorosa?
Pensei que um cadáver era apenas algo morto. Mas isto é sinistro!
E de alguma forma - coisa medonha! - ela parece estar grudada em mim!"

em O homem que caía da cama, de O homem que confundiu sua mulher com um chapéu de Oliver Sacks.

processo criativo 1

"O mundo é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem."
Horace Walpole, 1769

domingo, 9 de março de 2008

Sonho, ou delírio

Chega de fundo preto!!!!

Não, é a nossa pesquisa espacial, o não-ocultar os bastidores, limpeza, o que importa, afinal, é o indivíduo em cena, o palco vazio tem energia...

Foda-se! Cansei de fundo preto! Cansei!!!!!

Lembre-se: a improvisação é o funeral dos seus desejos...

Cala a boca! Quero um fundo, branco, que seja! Qualquer coisa!... Pra mim isso é coisa de pobre, ficar miguelando cenário... fundo preto, fundo preto... argh!

PUF

Acaba tudo! Puf! Assim, acaba!
E aí?
E aí nada, acaba! É isso. Como você nasceu? Assim, puf! Sem saber, nasceu! De repente vai morrer. Deixar disso tudo, de ser.
Que loucura! Não pode ser. Mas e aí, e depois?
Depois nada. Nada. Nem isso, nada.
Eu lembro a primeira vez que pensei assim - Nossa, eu vou morrer e... puf! cabou! Cabou tudinho.
Acho que tinha uns doze anos... doze não, acho que sete. À noite, na casa da minha avó, num quarto sozinha, provavelmente longe da minha mãe. Talvez algum irmão ao lado, mas que estava dormindo, então não fazia diferença. Ele dormia e eu, não. Não conseguia dormir. Acho que foi minha primeira insônia, que eu me lembre.
Algumas dessas vezes, como hoje, me vem esse pensamento, esse vazio, que nem vazio é, nem nada... é: nossa! Eu vou morrer e... puf!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

exatos 31 min

porque um "cenas do próximo capítulo"? Deixei espectativas nos leitores e terei necessariamente que falar sobre algo que prometi...

panqueca de maçã
não foi simplesmente isso. Em primeiro lugar, era maçã verde. Isso muda tudo, pois o azedinho predomina (calibrado pelo limão que ainda por cima serve como entrave da oxidação - pra quem não sabe, o limão não deixa a maçã ficar escura).
A massa, pelo que parece, é bem simples. Não vou aqui ficar dando a receita pois não fui eu quem fez. Mas sei que vai o leitinho e o ovinho... (aqueles! - para entender leia o post abaixo). Enfim... que massa!! Formando par com o iogurte, parecia um manjar.... derretia na boca... hummm.

*Sabe aquela sobremesa com que se sonha? Eu sonho com essa: panacota. Não qualquer uma. Tive a sorte de ter uma amiga cuja mãe faz uma das melhores massas da cidade e, ainda por cima, a melhor panacota. E digo que virou melhor ainda pelo fator psicológico: ela parou de fabricar e a bichinha virou uma raridade!!!*

Então... a massa da panqueca tinha essa pegada panacota de ser... algo incrível.
Coberta com as maçãs azedinhas, o açúcar levemente queimado na frigideira e posteriormente flambado no rum e uma salpicada de canela... divina!
Quem fez? Como fazer? Pergunte à miss kitchen que ela sabe...
______

Não foi nenhum drama falar da panqueca... pelo contrário, o assunto traz ótimas lembranças, olfativas, gustativas...
de fato, vou aprendendo cada vez mais com Isabel Allende (e inconscientes seguidoras), que o que conta realmente é um todo, que começa no valor que se dá aos alimentos (às vezes desde o momento em que são extraídos do seu ambiente natural, em outras deve-se esquecer completamente a origem daquilo - caso de bichinhos, fungos, etc) e passa por toda a forma como é preparado, curtido, vivenciado. Enfim, tudo tem seu tempo. Acho que é esse o grande segredo da cozinha, pelo pouco que sei.
______

Talvez isso seja o grande segredo da vida, ou o grande aprendizado. Maturidade me parece cada vez mais ser a sabedoria com relação ao tempo.
______

Bom, vocês pediram, tô aqui falando sobre a vida... ou perdendo tempo! O que é esse tempo virtual que tem a capacidade de nos sugar do mundo real??? Socorro!
______

Vou viver um pouco.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

sabor da fazenda

Quem faz iogurte em casa sabe que pra isso não pode ter pressa. A natureza tem seu tempo, não há como fazê-lo de outra forma.

Faz um tempo que meus iogurtes desandavam. Às vezes por querer encaixar sua feitura no meio de um dia corrido, entre um almoço e uma escovação de dentes. Definitivamente, isso não funciona.
E mesmo quando deram certo em termos de consistência, meus últimos iogurtes teimaram em preservar uma acidez um pouco acima do normal.
"Não estou acertando a temperatura", pensava eu, ou que devia estar colocando a colherada do iogurte inicial enquanto o leite ainda estava muito quente, então os lactobacilos ficam muito agitados e soltam ácidos a mais... sei lá. Vou dizer que não sou muito especialista ou estudiosa dos efeitos químico-celulares de microorgânismos em termos culinários, sou mais dependente da minha intuição, mesmo.
Pensava que tinha perdido a força intuitiva, mas os iogurtes estavam comíveis... (e qual a graça de comer um iogurte "comível"?)

Até que tive a oportunidade de passar um feriado de carnaval no retiro de um sítio ao sul de Minas. Eis que me deparo, logo na viagem de ida, com meu lado bezerro-recém-desmamado diante do famoso Leite na Pista e seu cardápio variado de... leites! Ao avistar no cardápio a palavra "leite" e as inúmeras possibilidades que dele podem surgir, e que se encontravam enumeradas embaixo, como "leite com toddy", "leite com mel", "leite cremoso"... me vi salivando, literalmente babando com a possibilidade de degustar o puro leite da vaquinha, como quer que fosse.
Fui no básico achocolatado, e nem foi aquela degustação dionisíaca, pois a dona do sítio aonde estaríamos dali pouco tempo informou que neste destino encontrariam-se vaquinhas de verdade à nossa disposição para explorarmos o sumo de suas tetas.
Por mais aflorado meu instinto mamífero naqueles instantes, não podia esquecer-me o lado ruim do leite no organismo adulto de um ser humano, e meus acompanhantes ajudavam, comentando que o fato de uma mulher de 50 kg beber o alimento que serve para nutrir um bezerro 4 vezes maior que ela implicaria em fungos e outras substâncias não muito bem-vindas ou cheirosas na digestão desse alimento.
Mas isso é simples, só ouvir um pouco o corpo que dá pra dizer chega à lactose e beber só um copo.

Mas o que me despertou não foi a volta à infância em termos uterinos, foi a lembrança do gosto de um alimento que, além de muito saboroso, acabou de ser fabricado naturalmente. Enfim, quem já colocou a caneca com chocolate debaixo da teta de um bicho desses (seja vaca ou cabra) e experimentou a espuma formada pelo leite recém-saído, na temperatura ideal, sabe do que eu estou falando.

E com esse leite, ainda morno, com cheiro de gordura de leite, puro creme, que não faz lembrar em momento algum a palavra colesterol, é que fiz o melhor iogurte da minha vida. Um verdadeiro manjar dos deuses.
Algo que só especialistas sabem desfrutar.


próximo tópico: a panqueca de Maçãs feita com leitinho da vaquinha e ovinho da galinha.